sexta-feira, 9 de abril de 2010

A criança e seu processo de alfabetização



As pesquisas sobre o processo de alfabetização vêm mostrando que, para poder se apropriar do nosso sistema de representação da escrita, a criança precisa construir respostas para duas questões:



1. O que a escrita representa?


2. Qual a estrutura do modo de representação da escrita?


Ao começar a se dar conta das características formais da escrita, a criança constrói então duas hipóteses que vão acompanhá-la por algum tempo durante o processo de alfabetização:


• De que é preciso um número mínimo de letras – entre duas e quatro – para que esteja escrito alguma coisa.


• De que é preciso um número mínimo de caracteres para que uma série de letras “sirva para ler”






Hipótese Pré- Silábica


A criança:


• - não estabelece vínculo entre a fala e a escrita;


• - supõe que a escrita é outra forma de desenhar ou de representar coisas e usa desenhos, garatujas e rabiscos para escrever;


• - demonstra intenção de escrever através de traçado linear com formas diferentes;


• - supõe que a escrita representa o nome dos objetos e não os objetos;coisas grandes devem ter nomes grandes, coisa pequenas devem ter nomes pequenos;


• - usa letras do próprio nome ou letras e números na mesma palavra;


• - pode conhecer ou não os sons de algumas letras ou de todas elas;


• - faz registros diferentes entre palavras modificando a quantidade e a posição e fazendo variações nos caracteres;


• caracteriza uma palavra com uma letra inicial;


• - tem leitura global, individual e instável do que escreve: só ela sabe o que quis escrever;


• - supõe que para algo poder ser lido precisa ter no mínimo de duas a quatro grafias, geralmente três( hipóteses da quantidade mínima de caracteres);supõe que para algo poder ser lido precisa ter grafias variadas (hipótese da variedade de caracteres)


Hipótese Silábica


• A criança:


• - Já supõe que a escrita representa a fala;


• - Tenta fonetizar a escrita e dar valor sonoro às letras;


• - Pode ter adquirido, ou não, a compreensão do valor sonoro convencional das letras;


• - Já supõe que a menor unidade da língua seja a sílaba;


• - Supõe que deve escrever tantos sinais quantas forem as vezes que mexe a boca, ou seja, para cada sílaba oral corresponde uma letra ou um sinal;


• - Em frases, pode escrever uma letra para cada palavra.


• Ao ler as palavras que escreveu, o que fazer com as letras que sobraram no meio das palavras ou no final ?


• - Se coisas diferentes devem ser escritas de maneira diferente, como organizar as letras na palavra?










Hipótese Silábico com valor sonoro


A criança:


- Inicia a superação da hipótese silábica;


- Compreende que a escrita representa o som da fala;


- Combina só vogais ou só consoantes, fazendo grafias equivalentes para palavras diferentes. Por exemplo, AO para gato ou ML para mola e mula;


- Pode combinar vogais e consoantes numa mesma palavra, numa tentativa de combinar sons, sem tornar, ainda, sua escrita socializável. Por exemplo, CAL para cavalo;


- Passa a fazer uma leitura termo a termo (não global).


Hipótese Alfabética


A criança:


- Compreende que a escrita tem uma função social: a comunicação;


- Compreende o modo de construção do código da escrita;


- Compreende que cada um dos caracteres da escrita corresponde a valores menores que a sílaba;


- Conhece o valor sonoro de todas as letras ou de quase todas;


- Pode ainda não separar todas as palavras nas frases;


- Omite letras quando mistura as hipóteses alfabética e silábica;


- Não tem problemas de escrita no que se refere a conceito;


- Não é ortográfica .


... As mudanças necessárias para enfrentar sobre bases novas a alfabetização inicial não se resolvem com um método de ensino, nem com novos testes de prontidão nem com novos materiais didáticos. É preciso mudar os pontos por onde nós fazemos passar o eixo central das nossas discussões. Temos uma imagem empobrecida da língua escrita: é preciso reintroduzir quando consideramos a alfabetização, a escrita como sistema de representação da linguagem. Temos uma imagem empobrecida da criança que aprende: a reduzimos a um par de olhos, um par de ouvidos, uma mão que pega um instrumento para marcar e um aparelho fonador que emite sons. Atrás disso há um sujeito cognoscente, alguém que pensa, que constrói interpretações, que age sobre o real para fazê-lo seu .


Emília Ferreiro



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